08/10/16

Ventos, ventos floridos.

Ventos, ventos, o outono: reflexo dos pôr de sóis deslumbrantes que nos têm pintado o céu de fim de tarde, onde tudo emudece e amarelece e arde.
Ventos de altitude atingem tons de cinza, esperando a luz oblíqua, que desvenda o dourado, o vermelho fogo alaranjado dominando o azul, quimera de um momento sem tempo.
Entretanto, no vale, as uvas, ignorando o vento, antevendo o corte, buscam o açúcar nos derradeiros raios de sol. Brevemente serão perfume, levedura e mosto, rumo ao néctar ao impossível futuro do futuro. Que futuro.

20/03/16

O regresso dos Flintstones

"Ôba! Barney !
Ôi Fred, Já viu esse aviãozinho aí voando?
Ora, Barney, não diga tolices, um quê?
Um jato, Fred é um jato... um avião a jato, sujo, cheio de sujidade...
Então, Barney, se está sujo vamos lavar ele, coitado,  vamos lavar jato...
Sim Fred, mas não seria bom avisarmos a Wilma de que vai chegar tarde?
Ora, Ora, Barney a esta hora ela está com a Betty e sabe como elas gostam de bate papo..."

Estava Sacadura distraído, ouvindo este diálogo pré-histórico sobre o Atlântico Sul, naquele hidroavião lêdo e ronronante,  a caminho do Brasil,  quando uma Baleia Branca irrompe das profundezas, bocarra aberta para o céu, assustadora e medonha, perseguindo uma Lula.
 Gago, que observava os astros espreitando pelo sextante, não viu a enorme lula que por impulso do jato que lançam as lulas desesperadas tentando escapar das baleias, se projetou acima da linha de água, no ar, voando... quase embatendo no "Lusitânea".
Escapou da baleia, e escapou como que por milagre, da hélice triturante do hidrovião. Mas aquele não era definitivamente o seu tempo, temia-se o pior. A lula estava perdida.
Sacadura, que nunca vira lula voadora, e estava ainda pensando no que acabara de ouvir resultado de umas ervas que comera em Fernando de Noronha: " Lava jato, Debate papo"... Deu um salto, provocando enorme instabilidade a bordo o que irritou seriamente o grande Gago Coutinho.
"- Sacadura! Se nos perdermos no meio do Atlântico, nunca mais chegamos ao Brasil!"
A grande e nobre missão daquela viagem , no Lusitânea era a de preparar a comitiva portuguesa aos jogos do Rio de Janeiro que seriam em Julho.
Entretanto, a Baleia, albina e sensível à luz do Atlântico Sul, habituada a rastejar nas imundezas, não viu a diferença entre uma lula inovadora e uma hidra-avião e, na cegueira da perseguição, saltou fora de água e abocanhou o Lusitânea mergulhando em direção ás profundezas.
Lula acabara de escapar de morte certa e Gago tinha agora uma verdadeira tarefa de navegação e orientação: na escuridão das entranhas da baleia, saber para onde iria o Brasil.
Apesar da gravidade da situação, Sacadura continuava absorto no seu mundo pré-histórico ouvindo Fred Flintstone batendo com força na porta de Dilma pois tinha chegado tarde do lava-jato:  " Dilma, abra a porta Dilma!, abra a porta!" ...


( Proximamente, a chegada do Lusitânea com os portugueses para os jogos do Rio.)



01/12/15

O Primeiro de Dezembro



No 1º de dezembro de 1640, andava eu na minha jactância particular entre Almada e Pedrouços, sobrevoando o Tejo, saboreando as vistas e tomando um Tinto de Alcobaça, quando, repentinamente, o pequeno avião cai e rodopia, resultado de uma manobra de emergência.
Entornado o tinto, perguntei ao piloto: "Então a que se deve tal pilotagem ?" Ao que ele me respondeu: " Tive que me desviar de um pilar desta incrível ponte que aqui colocaram, sem avisar".

Desconhecendo por completo a existência de uma ponte sobre o Tejo, parecia uma ponte..., pensei, "Estes espanhóis queriam ver se eu me despenhava. Isto é uma autêntica armadilha para jactantes, como eu."
De facto era. Para além de dois pilares incríveis, existiam inúmeros cabos pendendo e um arco invertido que tocava um tabuleiro digno das festas de Tomar. Uma autêntica teia, armadilha fatal para quem se deslocasse de Almada para Pedrouços, voando.
Nestes tempos de ocupação espanhola muitos avanços tecnológicos tinham sido implementados. Inclusive, voar.

Antecipando o grande Bartolomeu de Gusmão, Miguel de Vasconcelos e a duquesa de Mântua atiraram-se de uma janela abraçados, pensando; as sete saias da duquesa, rodopiando, vão fazer com que a nossa fuga pareça um golpe de Estado, o fim dos Filipes em Portugal.
E assim foi.

Quanto à ponte, ainda lá está, qual teia, atraindo alpinistas ingleses que se deslumbram com as alturas e a vista, tal qual eu, na minha jactância particular, bebendo um tinto de Colares, já que o Alcobaça se acabou, cartografando imaginárias Ópio e Absinto, lendo Pessoa e Pessanha, com quem, mais uma vez, expulsamos os espanhóis de Olivença.

Neste contexto, julgo que Olivença daria um excelente campo para os refugiados Sírios, cuja educação e sentido histórico determinariam o Regresso dos Portugueses.

16/10/15

É a cultura...

Em dia de festa para a Região de Aveiro, reuniram-se autarcas, ex-autarcas, presidentes de instituições e publico, na biblioteca municipal de Estarreja. Ambiente quase familiar.
Sem "powerpoints", o que se revelou interessante detalhe comunicacional, os intervenientes valeram-se de notas e de discursos cujo tema geral era "O Turismo". 
Intervenções de um modo geral interessantes de representantes da Turismo Centro, da Universidade de Aveiro, da CIRA,  um Agente Turístico e um "Marketeer", teceram notas e apontaram caminhos e ideias sobre o que temos e o que poderemos oferecer, de modo diferenciado, aos visitantes, aos turistas.
E a Náutica de Recreio, estando eu presente, também se referenciou delineando possíveis navegações no território do desenvolvimento da Região.
Devo dizer que, ao mais alto nível, ainda não se percebeu que, a náutica de recreio, englobando o desporto e o lazer nas suas diferentes escalas, pertence a um conceito muito mais abrangente e importante. Muito para além dos barcos, das marinas, das regatas ou do surf. Sempre que um barco veleja, rema ou flutua  é a Cultura Náutica e o Conhecimento que perdura e cresce.
É a arte dos barcos que se afirma. É um fator identitário e diferenciador que permaneçe.
Cultura Náutica, Navegabilidade, Turismo. E claro, a arte e a beleza dos barcos.

Falou-se pouco de cultura . Talvez ouvindo a Orquestra das Beiras, no programa da noite, já que as senhoras que lá estavam, trajadas a rigor e representando um grupo etno-folclórico, não se ouviram nem dançaram.







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08/10/15

Frequências comunicantes. A bordo do Tropical I

Este episódio reflecte a capacidade inesgotável da realidade para inventar o fantástico, apesar da racionalidade de meios e de métodos, da previsibilidade de quase tudo e de todos, das máquinas cada vez mais deslumbrantes que inventamos.
Numa dialéctica calesdoscópica, muitas histórias marítimas começam com um gesto primordial, que, no mar adquire uma dimensão determinante : a comunicação.

Bandeiras, códigos, luzes, sons, rádios,satélites , numa evolução rumo a uma acção eficaz, eis que somos capazes . Mas no entanto…
Das comunicações marítimas sabemos pouco, ficam entre os comunicantes, como vasos guardados num arquivo, mas do mar emanam histórias, como maresia fecundante, que no processo entrópico da gestação ou se perdem para sempre ou se materializam em epopeias, celebradas nas culturas que as recebem como base, fuste, capitel da civilização. A teoria de Darwin poderia aqui também ser referida pois as histórias marítimas, passado o crivo da existência selectiva, ora cintilam na escura lâmina do tempo em celebrações literárias, pictóricas, cinematográficas, ora desaparecem diluídas na imensa matéria oceânica do esquecimento. E o que dizer dos episódios? Os episódios são matéria de condensação necessária à aglutinação das histórias, são as gotículas fecundantes das epopeias marítimas...


Um japonês e um polaco, sobre um icebergue, discutindo sobre frutos tropicais, parece-me um bom começo para uma história... de Hugo Pratt , agora que celebramos o regresso de Corto Maltese, Por exemplo:

Ao largo, apenas a uma distância considerada segura, Tropical I, o navio, aguarda instruções. As baleeiras permanecem desaparecidas na bruma gelada. Corto, enfiado no seu longo casaco , procura acender o cachimbo.

Entretanto;


“Ancorado numa ilha rochosa, a umas tantas milhas do Ártico, aquele navio comunicou num rádio roufenho, em turco, para a ilha mais próxima, onde gente e focas só se faziam entender em norueguês, a pedir um mestre de caldeiras.
Dois dias depois, uma baleeira russa deixava no rochedo um homem. Desembarcado sob grandes riscos, tratava-se de um japonês, que apenas uma semana depois conseguiu explicar que era jardineiro. No dia seguinte conseguiu dizer que era especialista em frutas tropicais, e finalmente, dois dias depois precisava: abacaxis.
O rádio roufenho levou protestos e trouxe desculpas.
Daí a dias, nova baleeira, desta vez chilena, e novo homem. Um polaco. Quando a tripulação à beira da amotinação o ameaçou que lhe arrancava a língua, para a salgar como a dos bacalhaus, esta soltou-se-lhe, e em aramaico, conseguiu explicar; Era especialista em mangas.”


Dedicado à tripulação do Tropical I, com quem tenho sofrido dos momentos mais deliciosos da minha vida .


Artur Manuel Pires , no último dia do Verão de 2015, pouco depois de assistir a uma explicação sobre comunicações no mar.

13/08/15

52 CR 2015



O 52 CRUZEIRO DA RIA

fotos de josé fangueiro









16/01/15

Circunsfera



Desenhei a melhor ementa,

Coloquei sob a lapela a lápide,

Estendi pétalas pela casa,

Acendi o fogo da razão.

Mas mesmo assim,
ela evaporou-se na memória de um sorriso inigualável.


à mãe.

30/11/14

O sr. Prudêncio o Marquês e outras histórias dos "verdes anos".


                                                                                                                       1

O sr. Marquês era homem muito culto e bom. Chamavam-lhe "o Marquês Vermelho". Não porque se vestisse de vermelho, mas porque as suas observações francas e sinceras faziam ruborizar os medíocres, incultos, e mentecaptos. Gostava de bridge, de se levantar tarde, mas quem não tem vícios não tem réstia de humanidade. Gostava de coisas muito mais importantes contudo. Música, pintura e ... conversa. E procurava construir um Tempo de harmonia e felicidade, com as suas terras o seu saber a sua arte, em redor dos amigos e do país. Eu apenas me recordo de umas entrevistas aqui e ali, de umas notícias soltas, o suficiente para nutrir pela personagem admiração e respeitoso carinho.

                                                      O campo na minha aldeia.                  2 e 3

O sr. Engenheiro explicava o campo como ninguém. Explicava as vacas como o Eugénio de Andrade explica as aves. Cultivava a cultura do campo com galochas, microfone e gabardine, por vezes chegava de helicóptero e assustava as ovelhas que não estavam preparadas para tanto. E os pastores e agricultores tinham muita dificuldade em o seguir. Era, como José Hermano Saraiva, um grande comunicador, mas o sr. Engenheiro pretendia o futuro enquanto o sr Hermano Saraiva nos fascinava com o passado. E era nosso amigo, dizia ele. 


                                                    
                                                                                                                         4

O sr. Prudêncio não está aqui a fazer nada. O Sr. Prudêncio está deslocado, como estava deslocado na altura. Fumava, bebia vinho, enterrava o lixo no quintal e aplicava pesticidas como quem aplica napalm sobre as florestas tropicais. Tudo muito natural para aquela época. A dona Prudência ( que falta de originalidade) lavava a roupa infestada num tanque e concerteza preparava as batatinhas assadas e a sopinha para o sr. Prudêncio, tal qual a Joaninha da "Cidade e as Serras" de cem anos antes.
O sr. Prudêncio era como o intervalo dos filmes, "intervalo".

                                                                                                                      5 

O sr Anthímio era um caso sério. Num tempo em que o tempo só a Deus previa, entrava o Sr Anthímio professoral e humilde pela nossa sala dentro como quem dá uma aula aos netos. Rigoroso e mais uma vez, comunicativo, explicando as sinuosas curvas isobáricas , os A  e os B dos ciclones, punha Portugal em pé, do Minho ao Algarve, informando do estado do tempo para o futuro. Mais um que falava do futuro. Não de um futuro distante e promissor, para quando crescermos, mas um futuro que se vê ali mesmo ao virar da noite. Amanhã chove, não chove? Uma massa de ar quente vinda do Norte de África, temperaturas anormais para esta época do ano, mílimetros de chuva por metro quadrado, o sistema montanhoso Montejunto-Estrela... "Tudo mentira! Isso e os homens terem poisado na Lua... bah!". Portugal a dois tempos, como ainda hoje sucede.
O boletim meteorológico foi tão importante para o meu caminho como o mundo submarino de Jacques Cousteau, pois as ondulações de Noroeste com cerca de dois metros de altura e o vento soprando moderado do quadrante Sul foram sempre orientando as minhas incursões pelo mar adentro.
Rumo ao futuro que se vê.

1- Foto obtida no museu "undergroung" de Berado ( 2011)
2 e 3 -Desenhos em redor do puxadouro-Válega ( forum Unesco- 2002)
4- Proa de Moliceiro no Bico - Murtosa ( 2009)
5- Foto de José Fangueiro

08/05/14

Degraus

 Os socalcos do vale dos reis, não merece referência neste momento. O que vale mais é a incontornavel luz da tarde que esmorece, como a quermesse.




Cavalos cavaletes e ancoretes, eis a massa da cultura , no contexto Ribatejano perfume tauromáquico da beira ria,  o mais próximo que se julga da lezíria .

14/07/13

O papel do povo

De quando em vez apodera-se de mim uma esperançosa ideia de Portugal. Vêm estes momentos ciclicamente, após tempos de monocórdica política, como os  cinzentos desenvolvimentos cavaquistas, pontuados pela pedra escacilhada do CCB que afinal merece aplauso mas não silencia os diversos buzinões do cavaquismo, preparando a chegada de Guterres e uma esquerda rosa esperança por fim afundada no célebre lamaçal que afugentou um primeiro ministro fragilizado, mas que erigiu a expo 98 com o auxílio de Sampaio autarca. Insuficiente.
Chegou posteriormente outra esperançosa ideia, quando uma renovação política se erigiu sob a batuta de Durão Barroso que logo se perdeu nos meandos da guerra do golfo, numa cimeira açoriana de má memória e consequente debandada para Bruxelas.
Insistiu essa ideia esperançosa na chegada socrática, depressa varrida pelo frenesi financeiro e económico com quem  estabeleceu uma podridão ética na indesejável partilha de poderes, com as magistraturas, os bancos e os grupos económicos á mistura. E finalmente com a entrada em cena de um rapaz bem intencionado, Passos Coelho,  que dizia iria repor a ética na política, os princípios republicanos sem demasiado estado devolvendo o protagonismo do desenvolvimento á força empreendedora e empresarial do país... Menos estado e melhor estado.
Estes os momentos em que me deixei enredar na ideia esperançosa de um portugal futuro, onde os meus sonhos de uma sociedade baseada na nossa extraordinária diversidade de interesses e consequentemente numa criatividade e conjunto de ofertas só nossas e que potenciadas, dariam novos produtos ao mundo. Eu e os barcos, a cultura náutica, a nova economia do mar... Redes de espaços que celebram a nossa relação com a água, mobilidade, pazer, liberdade, disciplina, competição, identidade, verdade. Que lindo!
Eis que a tudo isto subjaz um sistema de informação e de debate público cujos protagonistas, oriundos do mesmo paradigma social económico e cultural, diverso mas sintonizado, formatam movimentos de opinião que traduzem a vontade das elites e que mais não são do que as falanges dos interesses estabelecidos, salvo alguns “freelancers” que se revelam aqui e ali, mas que são sempre colocados no seu lugar sempre que necessário.
Neste quadro tudo é previsível. Mais deslize menos deslize, quer os comentários políticos, quer as previsões económicas e financeiras são previsíveis. Os desvios e as diferentes realidades que se revelam resultam apenas do olhar mais ou menos otimista com que se interpretam os dados da realidade, dados estes que quando nos chegam já vêm coloridos pelas estratégias e programas do desenvolvimento desejado, onde pontua sempre a permanencia e luta pelos poderes.
Chegado aqui, como vejo a esperançosa ideia do Portugal futuro?
A fenomenal sequência de movimentos na política dos últimos quinze dias, no contexto que sabemos determinante do estado da europa política, económica e financeira, culminou com a surpreendente intervenção presidencial, Cavaco Silva, que aparece com um lampejo de lucidez, dizendo claramente, é preciso repensar tudo isto, e só o podemos fazer de dentro para fora. Pois revoluções agora não são desejáveis e eleições serviriam apenas para afagar os egos daqueles que se têm colocado de fora do sistema, que é o sítio onde é mais fácil estar, pois quem de bom senso acredita no sistema?
Para tal contadiz tudo o que se esperava, não diz o que queriamos ouvir e não faz o que era previsto. Esta a grande contribuição de Cavaco Silva para o renascer da esperança no Portugal futuro. Pois é precisamente este o aspeto mais frágil da intervenção de Cavaco Silva mas que pela incrível força surreal da sua intervenção, leva os protagonistas políticos , ainda tontos, e espartilhados pelas pressões externas,  a prosseguir este caminho.
Eu claro, sempre movido pela esperançosa ideia do portugal futuro acho que agora sim, agora os líderes e as elites, vamos ( não gosto do singular) conseguir colocar os interesses do povo, aquele povo que é carrasco, mole, manso, inculto, alienado, pobre, manipulado, indisciplinado, corrupto, invejoso, mas dedicado e trabalhador sempre que lhe apontam uma causa demasiado grande para ser impossível. Já foi assim no passado, e portanto...


17/04/13

Maine memories (2)

another day at the shop

quarta-feira
O entusiasmo da descoberta acalmou um pouco após uns dias de rodopios. A adrenalina deceu até níveis considerados normais. Um dia de trabalho na aula de "lofting". Riscar linhas em superfícies brancas, de platex pintado sobre cavaletes. Retirar medidas das tabelas, transpô-las para os desenhos á escala real, ( 1:1) e marcar pontos. Muitos pontos. A minha equipe compunha-se de gente muito variada. Um piloto de carreira  australianno, um advogado do minesotta, um professor na IYRS, em Newport, e eu. Esavamos a "riscar" um pequeno barco a remos, esguio, rápido, de linhas muito elegantes. A sala de lofting situava-se no sótão , estreita e de pédireito baixinho, duas águas, tudo em pladur branco com clarabóias. Naquele dia o vento soprou forte, a casa dos barcos fechou, não fomos velejar. Ficámos até mais tarde.
Ao almoço fui até á tenda. O casal ao lado pôs boa música. fazem ginástica sobre um tabete, em frente á tenda. Mais parece taishi... Ele é fotógrafo, free-lancer, e imaginem, trocou uma foto por uma semana na costa vicentina, a nossa, claro! Na primavera vai voltar a Portugal e vai ficar numa casa junto á praia. Eu respondi-lhe que gostaria de ver essa fotografia...
Ao jantar tivemos queijo na sobremesa, depois de peixe assado,com um molho rico e variado. acompanhou umas batatinhas.... muito saborosas. O maine também é conhecido pelo cultivo de batatas. Antes do jantar ouvimos umas canções ao piano e que animado foi o improviso. Gente de talento não falta e tenho perdido muita  da animação em "MoutainHash", sobretudo á noite. Depois do jantar fomos para a casa dos barcos ouvir a história do Jeff e da construção do seu "Haven 12". O uso de sikaflex também está generalizado por aqui, como cola. não sei o que dizer mais depois de ir e voltar de desde as oficinas e acampamento até mountainhash. As pernas já se ressemtam da subida, e da falta de treino na bicicleta. O trimarâ está a ficar uma maravilha. Hoje falei da descoberta do caminho marítimo para a ìndia. Já foi há muito muito tempo mas ainda me lembro.

17/12/12

Câmara Clara

O que dizer do fim de Câmara Clara?
Que é triste e lamentável, que é uma perda, que a sua ausência cria um vazio que não será preenchido por qualquer outro momento televisivo, que desaparece um raro momento de crítica cultural, viva, apelativa e brilhante, empobrecendo muito significativamente a própria cultura televisiva, e o serviço público de televisão.
Porque acaba? Não sei. Mas temo a pior das razões, ditada pelo labirinto da propalada reforma dos meios de comunicação públicos, ou seja, do Estado.
A CULTURA, essa palavra vasta e imensa, perderá um momento que tem contribuido inequívocamente para a perpetuação e apuramento do espírito crítico e das ideias em torno da produção artística, entendida na sua ampla transversalidade.
A informação e debate em torno de eventos, pensamentos e autorias, de modo penetrante e clarificador, vai terminar na RTP2. Só podemos agradecer a todos os que criaram momentos de televisão únicos e que mais uma vez vão enriquecer o património em arquivo da RTP.
Para onde irás, Câmara Clara?

Apesar da luz que se apaga, não deixa de ser interessante o modo como acabou,  focalizando o lado brilhante da vida: "Allways look at the brigth side of life"...

26/11/12

Lumina lucida lacul

Ainda não referi aqui a luz que fica nos azulejos ao sol poente, enfatizando as cores e os desenhos épicos das cenas bíblicas, transportadas para a atmosfera clássica de um império que não é possível precisar. Tecidos envolvem os corpos em vestes caídas, togas, longos lenços, representação e cenários subindo a fachada vertical de onde se determina a fé, transpondo o portal.
É com esta luz que fica nos amarelos dourados, nos laços azuís e  torrados, camuflando as legendas desta imensa banda desenhada que se lê com a pequenez da infância incédula, difícil exercício por entre os ofuscantes raios lumínicos, que se partilham momentos pouco prováveis, encontros inesperados de visitantes que nos chegam de... Budapeste!
Só me recordo do nome da rapariga, jovem estudante de marketing e que tal como tantos outros, percorreu tantos e tantos kilómetros até aqui, só porque tinha visto estes azulejos desta igreja numa imagem, motivo de tal peregrinação. Ou então era o rapaz, rapagão local, famílias "do canas" ou outra denominação muito mais precisa do que os nomes, pois estes encerram sempre o artificialismo do ritual baptismo. Na sua ingénua insegurança, onde moram até as incertezas das pedras móveis, percorriam de mãos dadas as alamedas de tílias sem se preocuparem com a queda das folhas. Sobre estas, a mesma luz raspava vermelhos de castanhas, violetas pálidas, verdejantes amarelos, sublinhando a agonia clorofílica do outono. Neste contexto, também cabem os barcos de madeira que aguardam a sua oportunidade na luz lacustre, pois o timbre das madeiras cansadas e rugosas, aguardando o brilho lacado do verniz, refletem, também eles, histórias que se erguem pelos mastros até ás nuvens.
Chamava-se Roxsandra, a rapariga, e visitou a Igreja de sta Maria de Válega, pois gostava de azulejos, e o cais do Puxadouro pois gostava de barcos.

05/11/12

Dia 27 de Outubro





Aqui, nesta atmosfera, receio a impossibilidade da escrita.
As cores celestiais e as cores da água refletem-se de modo simétrico, simbiótico, até mesmo narcísico, como se a água se apoderasse de todas as lides pesqueiras ancestrais e com este saber enredasse a luz do Sol, tingindo a neblina ténue que se estende, tecendo uma toalha recortada por meandros e canaviais.

Vou sulcando estas águas calmas rumo ao cais, mencionando aos meus companheiros e marinheiros a existência evidente da Lua Nascente sobre os montes da Freita, e a luz do Sol Poente sobre o Atlântico, como se não bastasse o quadro natural , cíclico e regular, dos astros mais próximos e a sua previsibilidade, como se necessário fosse reafirmar a realidade, não vá esta esgeirar-se, exercitando mais um dos truques que nos iludem a existência.

Mas, discretamente, todos sabemos da extraordinária verdade que nos assiste, a Lua rodopiando em redor da Terra e a Terra rodopiando e transladando-se em redor do Sol, e nós aqui, flutuando neste espaço, tomando a realidade como narcótico e duvidando da nossa própria presença, levados pelo vento que captamos com as nossas próprias mãos, folgando velas, caçando escotas, arribando no vento suave de fim de tarde outonal. Nada mais simples e verdadeiro e no entanto duvidamos que seja possível, que possa ser tão belo e gratificante, que possa trazer a felicidade por um minuto que seja. Evitamos a dimensão cósmica da existência, pois esta não contribui para o PIB.



A liberdade passa por aqui, pela consciência de que não vivemos a plenitude das coisas e do que nos envolve, de que também fazemos parte integrante, de tal modo que já não sei onde comecei e onde acabo, nem o norte se atreve a ser apenas uma direção, nem o nadir se afirma convicto da sua natureza.


Uma taínha salta agitando a quietude da água e interrompendo a consciência do tempo local. Outro salto, e ainda um outro salto. São sempre três saltos, digo. Bem, sempre, sempre… mas na grande maioria das vezes a taínha salta sempre três vezes. È uma espécie de lei natural das taínhas. E dos carteiros, dizem ao meu lado. Interrogo-me sobre a vivência das taínhas naquela água que já foi um jardim verdejante, águas tépidas onde as marés se sentiam já esvanecendo, no topo Norte do estuário a que chamamos Ria, e onde eu deslizava de barbatanas, com os amigos de então, caçando taínhas e enguias de quilo. E os carteiros já não trazem telegramas, e ainda bem. Telegramas para mim são a guerra de África e os gritos aflitos das mães que os recebiam.

Outra realidade a de hoje.

Hoje deslizamos na água dirigindo um artefacto esplêndido, que se move sob a força do vento, consubstanciando uma arte que se chama velejar, velas, ar, barco e nós.

A luz continuava a sua digressão para Norte transformando-se em um azul anilado, contrariado pelo luar e matizado pelo vermelho cada vez mais fogo que se esmorece.

Cai o vento.



Utilizamos a pagaia e o tempo agora é das galeras, dos imensos remos que se manejavam ao som de tambores e marulhar de correntes. O preço a pagar pela dimensão imperial dos humanos, seres que se dizem sociáveis na sua essência e de facto, aqui estamos nós, ali estavam os escravos e os senhores nos tempos mais remotos, e apenas se passaram uns meros segundos se contarmos com a História das coisas.


Trazemos um lastro residual das indecisões e decisões mal tomadas ao longo do Tempo e portanto nada de mais simples na explicação das nossas limitações, sem necessitarmos de derramar sobre a existência uma lógica interminável de ideologias.

Nestas viagens pela Ria, simbiótica e narcótica, temos tempo para tudo.



04/10/12

A REPETIÇÃO DO CÉU E O SEU DONO

No hemiciclo olímpico da depuração política, debate-se a tensão governante num refluxo econónico-social.
Os elementares particulares, que somos nós, na sua abstração electrónica promovida pelas ondas hertzianas de espectro mediático, sentem os abalos oratórios de tantos elementos radiantes que do hemicíclo brotam.
Ali temos os já nossos conhecidos, de outras ga-lácteas, Francis Ardôsia, Jerónimo the Álamo and Pierre-Pas-le-Lapin. Teremos ainda o Abacate Seguro, e concerteza e sempre o enorme ausente, na Califórnia talvez, Paulo the Doors.
Todas estas tribos somos nós, os elementares particulares que sustentam o globo, o hemiciclo celestial e todas as ga-Lácteas. Nós? Sim, criámos, com o iluminismo das descobertas geográficas, científicas e sociais, todo este estrelar sistema pseudo monárquico, camuflado pelos brotos demo-cráticos, ainda com resíduos dos panteões gregos e romanos, de forte influência faraónica e mesopotâmica.
Criámos com a nossa fértil imaginação electromagnética, fortes sinapses erráticas que nos levaram a uma concepção helenística do sistema. E daqui não conseguimos sair pois contrariar uma verdade moderna com uma verdade futura é exercício de fortes bombardeamentos nucleares, criadores de instabilidade e trocas energéticas de variáveis incertas. Esperemos grandes descobertas no CERN, e encontrar o que fazer com a particula milagrosa, o grande Gozão. Como dizia o Wild Oscar, deus sobrestimou o homem... H .

Neste momento, no Olimpo do hemiciclo, Abacate Seguro usa a esgrima aritmética para iludir a questão, lembra-me  o romano que eliminou Pitágoras na ausência de Sócrates. Passando a palavra, os depurados do Central Social, riders on the storm, lembram a rigidez dos Hunos e o poder de Thor. Demasiado poder para uma simples bolicao de censura, mas lá está, a tendência de teor helénico, a mania da superioridade. Continuamos no Medi-Terrâneo.
Pierre Pas le Lapin saltita por entre os chumbos previsíveis, pois oriundos do mesmo oráculo ideológico, com agilidade já um pouco cansativa, vai evitando qualquer ferimentos pois ainda funcionam as linhas de de Wellington, ali para a região Oeste. Continua ali o grande saber defensivo, a oratória de escola Inglesa, os mestres, pois distantes das ilhas gregas mas sonhando com o azeite o alho e as musas. Daí a sua indiscutivel eficácia, desde o muro de Adriano.
Interrompe a Assunpão Cristalina com a aritmética do tempo, o evocar de Chronos. A Chrono-Lógica Assunção.

24/05/12

O tempo que se ganha na observação natural

O que se passa é o temporal momento da existência
que se permuta por uma tranquila passagem sob a ponte.



21/03/12

Phonema, fenómeno, poema.

Edificando phonemas em catedrais de poemas,
hoje, constructo livre em rigor de formas e junções
afago as tábuas desafiando a sorte.

Projecto gramatical nunca antes calculado
com origem e fim num fio de prumo,
sondagem de fundos infindos
abarcando mundos fecundos
entre as fendas e os rebites...

Eis portanto o tema:
num fenomenal choque de phonemas
uma tentativa de poema.


27/02/12

Etnomúsica- Bairrada under and uperGround

New York, New York...




E naturalmente, o mastro de uma barca.... South Street Maritime Museum.

19/12/11

Rumo: 2012



Campeonato nacional da classe vouga - 2011.
Foto: Arq. Sérgio G.