O castelo da beira mar

No tempo das construções na areia, eu o Miguel e mais uns amigos que já não me lembro, construimos pela tarde um castelo de areia, na beira mar. Era uma construção completa, diga-se, de dimensões consideráveis, com muralhas, torres, fosso e tudo, e talvez lá morassem as princesas e as fadas, os cavaleiros e as ninfas, ou então muito simplesmente os caranguejos e as conchas.
Sei que das torres pendiam algas, daquelas algas finas e longas que dantes eram trazidas pelas ondas e davam á costa,  e que se tornavam adereços  enfeitando os corpos das  raparigas que não resistiam ao feitiço imaginativo que daquelas algas emanava.
No tempo das construções na areia sentíamos a atmosfera das praias longuínquas e exóticas onde as jovens dançavam enfeitadas com flores e conchas e ramos de verdura, e os rapazes exercitavam os movimentos guerreiros, com pistolas de cowbóis e navios de guerra, ou simplesmente iam ás corridas, nas pistas rápidas desenhadas na areia, onde os bólides eram caricas de refrigerantes ou de cervejas, decoradas e polidas nos muretes de granito do passeio da marginal...
Neste tempo das grandes marés baixas, quando o mar recuava para além das conchas e calhaus, era costume construirem-se grandes castelos na beira mar. Isto apesar de sabermos que o seu tempo era efémero, curto, mas digno apesar de raramente, servirem de palco a grandes batalhas , heroicas façanhas, ou criarem irredutiveis mitos. Mas, com este castelo de areia aconteceu algo de diferente.

Terminámos a grande construção aí pelas 7 horas da tarde, trabalhos interrompidos pela hora do lanche, e admirada a obra, deixámo-la intacta, pensando, amanhã era uma vez um castelo, pois a maré ia subir e os banhistas matinais ali iriam calcorrear as ameias, o fosso e a ponte levadiça...
Retirámo-nos, olhando o castelo por uma última vez. - "Amanhã fazemos outro..."

 E veio a noite e a lua começou o seu jogo de sedução com o mar que ia crescendo com a maré, e vieram as longínquas memórias de desembarques normandos naquelas águas do furadouro, quando ali existiam apenas baixios e uma passagem entre o mar e a costa interior, e os nórdicos investiam por esses rios acima. Mas, naquela noite de luar, os piratas iriam ter uma grande surpresa, que iria marcar para sempre a história de Ovar.
Os navios deslizavam em número de três, de proas erguidas e ar ameaçador, aproveitando a briza que ainda soprava de norte.  Ao fim do dia as aves aos milhares sobrevoavam aquela área e o manto ondulante dos bandos procurando refúgio nas enseadas e lagoas do interior, anunciavam grande abundância.
O chefe da expedição guiava-se pelo fumo das fogueiras que naquele dia afloravam ao longe anunciando presença humana e talvez algum festim, e observava a ondulação e as águas, procurando o som das ondas e o branco azuleado da espuma na praia. A maré estava baixa e encalhar ali seria uma enorme perda de tempo . Poderia colocar em risco a expedição.


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